Unemat faz pesquisa

Da pós-graduação à política pública

Estudo sobre esporte escolar fundamenta guia nacional e transforma a realidade de jovens em Mato Grosso

Por Hemília Maia
01/07/2026

Ação de formação para os professores das escolas vocacionadas em Cáceres em 2025 (Foto: Arquivo Riller Reverdito)

Uma pesquisa científica nascida no ambiente universitário de Mato Grosso cruzou as fronteiras estaduais, ganhou páginas de uma revista internacional e consolidou-se como referência para a gestão pública do esporte em todo o Brasil. O estudo intitulado "Esporte no contexto escolar: percepção de apoio e a experiência esportiva positiva de jovens atletas", publicado na revista científica Retos, serviu de base teórica para a formulação do "GPS - Guia Prático do Sinesp da Lei Geral do Esporte", manual nacional desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva da Universidade Federal do Paraná (IPIE/UFPR) para orientar gestores públicos com base na nova legislação esportiva.

Além do impacto na esfera federal, as conclusões da pesquisa já estruturam ações práticas em duas frentes de destaque no estado: no programa de extensão universitária da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em Cáceres, e na consolidação de 14 Escolas Estaduais de Tempo Integral Vocacionadas ao Esporte (Etives), coordenadas pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (Seduc-MT).

Os pesquisadores Leilane Lima e Riller Reverdito, autores do estudo que correlacionou o acolhimento escolar à experiência desportiva positiva de jovens. Nascida na pós-graduação, a pesquisa fundamentou diretrizes nacionais e transformou a realidade desportiva em Mato Grosso.
Fotos: Arquivo Pessoal

Para os autores, esse fluxo exemplifica o papel social do investimento em ciência. “O financiamento para a ciência significa investir em soluções que alcançam a vida das pessoas, gerando conhecimento que alcança a produtividade e a qualidade de vida”, afirmou a pesquisadora Leilane Alves de Lima, doutora em Educação Física, pesquisadora colaboradora no Laboratório de Estudos Aplicados em Pedagogia do Esporte (Leape-Unemat). O coautor do estudo, doutor em Educação Física e professor da Unemat, Riller Silva Reverdito, complementou que o ciclo valida o propósito da pós-graduação: “A pergunta para a pesquisa surge dos problemas reais que alcançam as pessoas. Ver a pesquisa no cotidiano significa que alcançamos o seu principal objetivo”.

Inclusão e acolhimento familiar em Cáceres

No câmpus da Unemat em Cáceres, os achados científicos embasam o programa Ensino, Vivência e Aprendizagem do Esporte, que atende mais de 300 crianças e adolescentes, com e sem deficiência. A investigação demonstrou que a percepção da escola como um ambiente de apoio seguro potencializa o desenvolvimento humano, permitindo estender essa metodologia para modalidades olímpicas e paralímpicas.

De acordo com Reverdito, o programa reconfigura a atuação docente para além do treinamento convencional. “Não se trata de escolher o aluno através de um processo de seleção, mas de tornar o jogo possível para todos, ou seja, criar um ambiente que proporcione oportunidades”. A coordenação pedagógica utiliza os dados da pesquisa também para corrigir uma lacuna estrutural histórica: a aproximação intencional com as famílias dos alunos.

A atleta Anna Victória (13) e sua irmã Maria Laura (11) recebem o apoio da mãe, Laura Piedade, e da avó, Ana Maria, em registro que celebra o impacto do projeto de extensão universitária na rotina da família
Fotos: Arquivo pessoal

O impacto prático do acolhimento é confirmado pelas famílias atendidas. Laura Piedade, mãe das atletas Anna Victória (13 anos) e Maria Laura (11 anos), relatou que o comportamento e as responsabilidades das filhas mudaram positivamente desde o ingresso no projeto. “Através dele elas estão tendo oportunidades que talvez iriam demorar um pouquinho para se realizar”, afirmou.

Marinalva entre os filhos gêmeos, Gabriely (badminton) e Gabriel (atletismo), de 16 anos, iniciaram na natação e migraram para o badminton e atletismo através da iniciativa universitária. A família foi uma das primeiras atendidas pelo projeto de extensão da Unemat
Fotos: Arquivo pessoal

A segurança oferecida pela estrutura universitária também serve de suporte social a mães solo da região. Marinalva José da Silva, mãe dos gêmeos Gabriel e Gabriely (16 anos), recorreu ao programa para garantir um ambiente seguro aos filhos durante o horário de trabalho. “O momento que eu estava no serviço eles estavam no projeto, foi um acolhimento e eu agradeço até hoje pelo projeto que muda a vida de uma criança e de um adolescente”, relatou Marinalva, ressaltando que ambos evoluíram de forma disciplinada na natação antes de migrarem para o atletismo e o badminton.

Majô Dias, seu trabalho nas Escolas Estaduais de Tempo Integral Vocacionadas ao Esporte reflete os achados da pesquisa científica sobre a importância do acolhimento e da autonomia na experiência esportiva de jovens
Foto: Arquivo Pessoal

O esporte como eixo pedagógico em 14 escolas estaduais

Na rede pública estadual de ensino, os conceitos do artigo foram aplicados diretamente no desenho curricular das 14 Etives em funcionamento em Mato Grosso, inseridas no programa estratégico EducAção - 10 Anos da Seduc-MT. O modelo pedagógico inovador utiliza o esporte como eixo de articulação de todas as disciplinas.

“O esporte passa a ser o eixo central do projeto. Então, eu estudo matemática através do esporte, através das linhas da quadra, através da parábola de um arremesso de basquete. Eu estudo a velocidade de um arremesso de handebol, de um chute de futsal”, detalhou a profissional de educação física Majo Cristine Lopes Dias, pesquisadora da área e ex-orientadora da rede estadual, e atualmente doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação pela Unemat. Segundo a professora, associar o conteúdo regular ao universo de interesse dos estudantes facilita a assimilação acadêmica geral.

Diferente do ensino regular tradicional, onde o calendário de competições externas frequentemente gera prejuízo letivo e evasão para alunos-atletas, a escola vocacionada estabelece regimes específicos de compensação de aprendizagem. “Há uma compreensão da equipe pedagógica em relação à importância do esporte, ao calendário esportivo do estado, do país”, apontou Majo.

O egresso das Etives, Kaio Souza, medalhista internacional na modalidade de luta olímpica. Atualmente, o jovem atua como representante mato-grossense junto à Confederação Brasileira de Desporto Escolar (CBDE)
Foto: Instagram FMDE Oficial
 

O sistema de rotatividade esportiva inicial da rede, que permite aos estudantes experimentarem circuitos de diferentes práticas antes do direcionamento técnico, tem gerado trajetórias de sucesso pessoal e acadêmico. Um dos exemplos citados pela pesquisadora é o do estudante Kaio Souza, que ingressou na escola selecionado para o tênis de mesa. Durante os circuitos rotativos, descobriu a luta olímpica, modalidade na qual sagrou-se campeão municipal, estadual, nacional e internacional, chegando a disputar os Jogos Escolares Internacionais em Paris. “Hoje ele já finalizou o ensino médio e é representante mato-grossense dentro da Confederação Brasileira de Desporto Escolar (CBDE)”.

Formação cidadã e o ingresso no ensino superior

Os dados coletados no cotidiano escolar indicam que a maior transformação operada pela política pública baseada na pesquisa científica repousa no desenvolvimento socioemocional dos jovens. Ao passarem pelo modelo vocacionado, os estudantes apresentam avanços significativos em indicadores de autoconfiança, determinação e resiliência.

“O objetivo principal não é formar atletas competitivos e de alta qualidade. É formar cidadãos que vão conseguir galgar os caminhos para a sua vida”, destacou Majo Dias. A docente identificou que as turmas treinadas sob os pilares do acolhimento e da autonomia passaram a gerenciar funções correlatas ao esporte, como arbitragem, estatística e organização de campeonatos locais.

O ex-atleta de basquetebol Cauã Cerqueira, que encontrou no modelo vocacionado o estímulo para seguir carreira acadêmica. Ele atuou na arbitragem de ligas nacionais, foi bolsista de iniciação científica com apoio da Fapemat e agora conclui a graduação em Educação Física.
Foto: Arquivo Pessoal (Majo Dias)

Muitos desses estudantes tornaram-se bolsistas de iniciação científica por meio de projetos financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat) e ingressaram no ensino superior. É o caso de Cawan Cerqueira, ex-atleta de basquete que atuou na arbitragem de ligas nacionais universitárias, recebeu fomento da Fapemat para pesquisa estatística e conclui a graduação em Educação Física; de Samara Teixeira, antiga bolsista de estatística aplicada que hoje cursa Medicina Veterinária; e de Vinícius Grauí, que desenvolveu habilidades em audiovisual dentro de um projeto escolar voltado à memória esportiva e atualmente atua no mercado profissional de produções cinematográficas.

Para os coordenadores, o pioneirismo de Mato Grosso na consolidação dessas diretrizes científicas, integrando a universidade, o ambiente escolar e a comunidade esportiva nacional, consolida um modelo robusto de transformação social por meio da educação intencional. Os frutos da experiência pedagógica das escolas estaduais vocacionadas devem ser reunidos em breve em um livro dedicado a registrar a memória institucional e os índices de aproveitamento dos egressos da rede.


Assessoria de Comunicação - Unemat

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